Assisti hoje dois filmes na sequencia. Estou intrigado como estes dois filmes se complementaram por uma lógica curiosa e perversa.
Primeiro assisti "Lula, o Filho do Brasil". Logo em seguida, assisti "Preciosa" (Precious).
O primeiro filme foi produzido no Brasil pelo clã Barreto, e narra a conhecida trajetória do nosso presidente Lula até mais ou menos meados da década de 80.
Já "Preciosa", produzido por Oprah Winfrey, é sobre uma menina negra de 16 anos do Harlem, que sofre diversos abusos físicos e morais por todos os lados, inclusive estupros do próprio pai.
O filme do Lula é o nosso candidato ao Oscar para ano que vem. "Preciosa" ganhou esse ano dois Oscars, um por Melhor Atriz Coadjuvante e outro por melhor Roteiro Adaptado.
Uma história tipicamente brasileira contrapõe a história típica americana. Digo típica, pelos filmes tratarem de contar a trajetória de gente muito pobre. E pessoas pobres, como todos sabem, compõe a massa popular onde aflora os aspectos humanos mais intensos. Mesmo no cinema.
O filme de Lula deveria se chamar o "Filho de Dona Lindu". O foco está na mãe o tempo todo: a mãe guerreira, a mãe que aguenta o marido bêbado, a mãe retirante, a mãe que enfrenta a enchente, a mãe dona de casa, mãe que aconselha. Enfim, Lula teve uma mãe e tanto, pelo que mostra o filme. De acordo com o filme, sem ela, Lula não teria e nem se formado no SENAI, onde se formou como torneiro mecânico. Lula surfa na onda da força do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, e vai dando se dando bem pelo seu carisma e sorte.
Já "Preciosa" é o oposto. A mãe da menina é uma vagabunda de mão cheia, que não se levanta do sofá nem para pegar água. Vive da pensão da Previdência Social, maltrata a filha com toda a perversidade de uma megera. Poucas vezes se viu no cinema cenas tão fortes de mau-trato entre pessoas da mesma família. Chocante! Mãe e filha se tratam mal, comem mal (a personagem principal e a mãe são muito gordas), moram mal. Precious ainda tem dois filhos que são fruto dos diversos estupros sofridos pelo pai. A primeira filha tem Sindrome de Down. Descobrem que tem AIDS. Enfim, o caos total.
O foco dos dois filmes sempre está na mãe. Na importancia da criação para o futuro dos filhos. Lula se deu bem e Precious meio que também se dá, apesar dos pesares. Não sabemos do futuro dela, pois ela é uma personagem de ficção, enquanto o do presidente, esse sim, parece ficção, mas não é. Mas me intriga o foco na mãe dos personagens, na conexão entre elas. Lula poderia ser Precious e Precious poderia ser Obama. A mãe fez a diferença.
Fiquei pensando: será que é melhor ser pobre aqui ou nos Estados Unidos?
Os problemas americanos ficam expostos e sangram de uma forma quase que quase asfixia o telespectador nesse filme. Uma história perturbadora, assim como são os melhores filmes. Já o Barretão alivia para nós. A pobreza nos anos 60 e 70 parecia muito feliz, romântica e inocente. Você fica angustiado somente com a truculência do exército da ditadura. O filme peca pela falta de emoção em alguns momentos, faltou sal. O Brasil e Estados Unidos se encontram nesses filmes que narram a trajetória de gente humilde, pobres que procuram um lugar ao sol.
Prefiro pensar que ser brasileiro, é de certa forma, melhor. Tem algo a ver com a família brasileira. De certa forma a sociedade americana adoeceu tanto nos ultimos 20 anos que acho que uma decadência retumbate é inevitável. O Brasil, por sua vez, está deixando de ser o país do futuro para ser o país do presente. Assista a esses dois filmes se tiver chance. De alguma forma essas histórias dizem mais sobre o presente do que a própria História.
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